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O cachorro bravo


Um homem tinha um cachorro que era naturalmente dócil.
Certa feita, o homem brigou com a esposa e ficou muito zangado.
Como não podia bater na esposa sob risco de ser preso, descontou seu dissabor no cachorro.
O cachorro apanhou muito e foi abandonado.

Uma boa alma, encontrou o cachorro e decidiu alimentá-lo.
Quando ela foi fazer, o cachorro rosnou, avançou e mordeu ela.

Primeiro pensamento: nossa estou tentando ajudar, dar amor e esse cachorro me agrediu!
Outros pensamentos: nunca mais eu vou fazer isso, não vale a pena.
Será que a culpa é minha?
Como eu sou ruim nisso.
Cachorro estúpido, merece ficar com fome.
Eu vou dar um tapinha com jornal nas fuças dele para ver se ele me obedece.
Ah esse cachorro precisa de dominação, adestramento.

Podemos entender essa historinha de várias formas, através das várias perspectivas desses personagens.
Assim, podemos desenvolver a compaixão pelos demais e não nos ferir com uma mente turbulenta, nem levantar as barreiras do ego para manipular/domesticar/reprimir os outros.

Existem pessoas, que assim como um cachorro que apanhou, que mesmo quando recebem amor, sentem medo e não podem controlar isso. 
Mesmo quando recebem coisas boas, desconfiam e se sentem tão ameaçados que atacam.
Punem a si mesmos e a todos ao seu redor.
Algumas pessoas estão em tanto sofrimento, tão frustradas por não receberem o que desejam, se sentindo rejeitadas, abandonadas, maltratadas, que ficam "berrando" e mesmo quando recebem o que querem, reagem atacando aos demais, causando muito sofrimento.
E seguem se queixando que não recebem amor, que as pessoas são más e culpando a tudo e a todos... mas estão incapazes de perceber os presentes maravilhosos que chegam até elas por estarem presas na cegueira da dor.

Eram inocentes, não foi sua culpa o que aconteceu com elas, não foi sua culpa terem apanhado tanto.
Mas é de sua responsabilidade a forma com que escolheram se envolver com a dor, tomá-las para si e reagirem.

Por outro lado, existem aqueles que dão amor e quando esse amor não chega ao destinatário começam a se culpar/martirizar pela reação do outro, e desejam abandonar o ato de amar.
Como se diz: é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Mas normalmente, é exatamente isso que fazemos. Emburramos! Damos birra!
Se você diz que a sua essência é amor e que você é uma boa pessoa, deve continuar sendo uma boa pessoa e exercendo o amor independente da reação do outro, seu caráter e postura não podem ser moldados com base no que o outro faz ou deixa de fazer. Para tal, você deve conhecer muito bem seus valores e princípios e horná-los. 
Porque como podemos ver, algumas pessoas simplesmente não podem ou não conseguem receber.
Assim você entendendo a situação do outro, desenvolve a compaixão, respeita isso e vai embora sem se identificar ou envolver no drama... e não entra na frequência do coitadinho que foi dar amor e o outro isso e aquilo....pq a tendência é você começar a culpar o outro e se fazer de coitado, ou elevar seu ego às alturas para compensar a sua própria desvalorização.

Outra coisa que acontece, é que tentamos manipular o outro, reprimir o outro, punir o outro, assim como fazemos com os animais quando vamos adestrá-los. Para que o outro fique obediente aos 'MEUS DESEJOS'.
Isso não serve a nenhum propósito a não ser ao seu ego. Não resolve o problema e apenas reprime a expressão da dor, que mais cedo ou mais tarde irá se manifestar de outras formas.

Ou ainda começamos a praguejar: o outro merece isso mesmo! Coisa boa, bem feito! A lá o Karma vem e por ai vai... Se você entende que o outro está em sofrimento, entende também que dor só gera mais dor, e que desejar isso ao outro é a mesma coisa que ofender a si mesmo. E mais ainda, entende que somente o amor, respeito e acolhimento poderão resolver essa situação, mais hora menos hora.
Se nesse momento o outro não pode receber, não fique ali gastando sua energia e seu tempo tentando convencê-lo de que aquilo é bom para ele, ou achando que você precisa salvá-lo. Pegue seu amor e vai embora plantar onde você poderá colher e deixe que o outro viva seus processos, e no tempo dele, ele mesmo, dotado de seu poder, irá tomar a consciência necessária para sair dessa situação.
Ficar em um ambiente que está te ferindo, ainda que você ame, é puro ego querendo que o outro te valorize, enquanto você mesmo está agindo com total falta de respeito a si. Entenda, nesse momento (ou nunca) o outro NÃO TEM condições de aceitar o que você está oferendo. Vá embora! Ir embora, também é um ato de amor. Compaixão é entender e respeitar os processos do outro, e aceitar que você sente muito, mas que não pode/não deve interferir.

Podemos ainda ver uma outra situação: quantas vezes não somos o homem que "desconta" as tristezas e raivas em pessoas que julgamos "menores" e mais fracas? Quantas vezes não subestimamos e passamos por cima da integridade de alguém por causa de nossas decepções? Ou por causa da interpretação errada e egóica da nossa mente perante as experiências que passamos?
Quantas vezes, quando estivemos em sofrimento, não magoamos o outro, rejeitamos o outro, abandonamos o outro?

E quantas vezes fizeram isso conosco? Nossos pais, nossos amigos, nossos parceiros, nossos chefes...
Se eu desenvolver a compaixão entendendo que eu não tenho a ver com a frustração do outro, eu não me envolvo nessa situação e não trago essa dor para mim. Entendendo também que todos somos humanos e fizemos más escolhas, e em algum momento descontamos e ferimos alguém, ainda que amássemos essa pessoa. Então, a mesma compaixão que tiveram comigo quando eu errei, eu tenho com os outros que por ventura também me agrediram de alguma forma.

Pense mais a fundo nessa história, e veja em quais momentos você foi o cachorro, foi o homem que bateu e foi a pessoa frustrada que tentou dar amor. Acolha todos esses momentos, todas essas fases e desenvolva a compaixão por você e pelos que estão passando por isso, e assim você abre espaço para uma nova consciência e expansão.

Por Flávia Borges Magalhães


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